TRÊS RIOS E UM DESTINO


João Bosco

É óbvio que se Jacobina fosse uma cidade industrial, sua situação ecológica seria bem pior que a atual. Imagine que sem indústrias ou fábricas, conseguimos quase exterminar nossas nascentes e mananciais. Somos incapazes de revitalizar três pequenos cursos de água que cortam a cidade: os rios do Ouro, Canavieiras e Itapicuru-Mirim.

Como se não bastassem os esgotos da cidade jorrarem para dentro dos rios, se ver de dia tamanho, indivíduos inconsequentes despejarem nos leitos dos rios, o lixo acumulado de suas lojas e moradias, como se lá fosse o depósio destinado a este fim. Pessoas que agem desta maneira, deveriam encontrar primeiro, uma fórmula de como viver sem água. Animais mortos e lixos hospitalares não deviam serem jogados no rios.
Porque se formos analisar bem a questão, chegaremos a conclusão de que poderemos sobreviver sem qualquer outro tipo de líquido. Menos sem a água.

Não se conhece uma só pessoa em Jacobina, empresários, donos de oficinas, marmorarias, madeireiras, gráficas, políticos, açougueiros, lavradores, fazendeiros, etc., que tenham um mínimo de preocupação para com a preservação do meio ambiente. Imagina aonde eles jogam seus esgotos e lixos? A Prefeitura Municipal, tem sua oficina mecânica praticamente no meio do rio do Ouro; o depósito de lixo da cidade é localizado nas margens de um riacho que desagua na Lagoa de Antônio Teixeira Sobrinho. Lagoa essa, que deveria ser preservada como uma reserva ambiental.  A Hila Transportes, no Bairro da Caeira e a urbanização da avenida Paulo Souto, vem contribuindo e muito na degradação da natureza, pois poluem e o soterram, maldosamente, o Itapicuru-Mirim. Porque tudo que não presta, que contamina, que entoxica, que mata... tem que ser jogado nas águas?

A ganância por dinheiro e a falta de planejamento urbano vem sendo as principais causas do crescimento desordenado das cidades.

Em leitos de rios, não são lugares de construir moradias. Se alguém falar em preservação ambiental em Jacobina, corre o risco de ser trucidado pelos empresários gananciosos e avarentos.

Uma fórmula bem simples e eficaz e que até uma criança seria capaz de exercê-la, é: Não soterrar os rios e nascentes, não jogar produtos químicos e derivados de combustíveis fósseis, nos rios, não jogar o lixo industrial, domésticos e hospitalares nos rios. Pois é. É fácil. Agora, a apegação e o fanatismo por dinheiro, os impede de ver que sem água, não há vida. Pode-se  até viver uns dias sem dinheiro, agora, sem água...

Leia o poema de cordel,  três rios e um destino, que compus no dia 04/02/2011

01
Nesses vales tinham rios
Onde a gente nadava.
Mulheres cantarolando
A roupa suja lavava.
Nos dias belos de sol,
Usando isca e anzol,
Peixes aqui se pescava.
02
Aqui viviam traíras,
Xique-xique, jundiar,
Corró, piaba, pilaque
Em cardume a negrejar.
Foi um tempo de bonança,
Hoje espanta até criança,
Ouvindo os velhos contar.
03
Viviam aves aquáticas:
Frango d'água, mergulhão,
O socó, o paturi,
Fazendo encenação,
Garça branca e jaçanã
Desfilavam de manhã
Nas margens do ribeirão.
04
Itapicuru-Mirim
Abraçava o rio do Ouro,
As águas se uniam
Com um sublime namoro,
Invadiram suas margens,
Não existem mais paisgens.
Só a solidão e o agouro.
05
Ocuparam os seus vales,
Mataram suas nascentes.
Com ajuda dos esgotos
Dizimaram os viventes.
Os homens sem corações
Deixam as destruíções
Pros seus pobres descentes.
06
O progresso é indomável,
Sai sempre na dianteira,
Pouco importa se destrói
A Natureza inteira,
Trabalham pra ver o fim
Do Itapicuru-Mirim,
Do Ouro e Canavieira.
07
Os tais dos homens modernos
Não pensam em meio ambiente,
Querem é juntar dinheiro
E viver tranquilamente,
Infelizes, sem amor,
Com seu rolo compressor
Leva quem estiver na frente.
08
Porém, os rios costumam
Seu espaço resgatar
E a fúria das águas
Só Deus pode aplacar
E os arrogantes choram,
Se ajoelham, imploram
Pro mundo não se acabar
09
O homem pensa ser esperto
Mas a si mesmo extermina,
Se preparem os algozes
Dos três rios de Jacobina.
Que hoje são depredados,
Poluídos, desprezados
Por essa corja assassina.
Por: João Bosco Silva Fernandes, poeta cordelista.
Jacobina-Bahia